Aprendizagem Motora e Treinamento

Amigos do Basquetebol

Neste post trago a colaboração do Professor Fábio Cunha, formado pela Escola de Educação Física e Esporte da USP, com especialização em Futebol. Fábio é autor dos livros Técnico de futebol – a arte de comandar; Torcidas no futebol – espetáculo ou vandalismo? e A ciência da grande área (autor do capítulo: Treinamento tático nas categorias de base).

Vamos ao texto:

A performance esportiva é determinada por uma série de fatores que compõem o treinamento e o desenvolvimento do atleta. Fatores esses, como por exemplo, a quantidade de unidades de treinamento; conteúdo; planejamento; treinamento técnico, tático, físico e psicológico; aquisição das habilidades motoras etc.

Um dos aspectos mais relevantes no desempenho esportivo de alto rendimento é a aprendizagem motora. Os atletas necessitam ter passado por um desenvolvimento sólido e harmonioso das habilidades motoras durante todas as etapas de sua vida, a fim de tentar buscar um desempenho otimizado dentro de sua modalidade esportiva.

O desenvolvimento multilateral oferecido aos jovens atletas durante os anos iniciais de sua prática esportiva é outro aspecto muito importante e que parece oferecer uma boa base de aprendizagem e aquisição de novas habilidades que culminarão com o rendimento esportivo.

A aprendizagem é “uma alteração na capacidade da pessoa em desempenhar uma habilidade, que deve ser inferida como uma melhoria relativamente permanente no desempenho, devido à prática ou a experiência” (MAGILL, 2002, p. 136). Para MELO (2001, p. 34) “aprendizagem é o conjunto de mecanismos que o organismo movimenta para se adaptar aos estímulos que ocorrem durante o ciclo da vida.”

De acordo com SCHMIDT (1993, p. 153) “a aprendizagem motora é um conjunto de processos associados com a prática ou a experiência, conduzindo a mudanças relativamente permanentes na capacidade para executar performance habilidosa.”

A habilidade é um ato ou tarefa que requer movimento por meio da prática, para que possa ser executada corretamente. É uma capacidade aprendida para efetuar resultados predeterminados com máxima eficiência, frequentemente com o mínimo dispêndio de tempo e ou energia.

A habilidade motora envolve uma sequência organizada de atividades. A organização ou padronização da habilidade envolve tanto os fatores espaciais como temporais. A habilidade é dirigida à meta, envolvendo toda uma cadeia de mecanismos sensório, central, motor e feedback.

Segundo GALLAHUE e OZMUN (2001, p. 28) habilidade motora é “um padrão de movimento fundamental apurado com acuidade, precisão e controle. A acuidade é enfatizada e o movimento extrínseco é limitado, como no arremesso de uma bola para um alvo”. Para MAGILL (2002, p. 6) habilidade motora é “uma habilidade que exige movimentos voluntários do corpo e/ou dos membros para atingir o objetivo.”

Processo de ensino-aprendizagem

Greco, citado por VILANI (2004) ressalta: “o contexto atual do processo de ensino-aprendizagem-treinamento, enfatizando as preocupações dos metodólogos das ciências do esporte, como a planificação dos níveis de desempenho que uma criança pode alcançar em cada uma das suas fases evolutivas, os aspectos como o drop-out, a seleção de talentos, a especialização precoce, e finalmente, a necessidade de planificar e sistematizar todo este processo de acordo com os interesses e necessidades de cada criança, baseando-se em princípios e métodos de treinamento esportivo adequados a cada faixa etária.”

O processo de aprendizagem é influenciado por um conjunto de variáveis, sendo a prática do indivíduo uma das mais importantes. Para GODINHO, MENDES e BARREIROS (1995), uma dessas variáveis que tem importância fundamental no aprendizado, além da prática, é o feedback.

A compreensão da tarefa motora que o praticante/jogador deve executar envolve quatro aspectos metodológicos fundamentais: a introdução do gesto técnico; sua explicação verbal; a exemplificação/demonstração do gesto e, por último, o começo da sua prática, isto é, as primeiras tentativas (MELO, 2001).

O processo de ensino das habilidades deve sempre partir do mais fácil para o mais complexo. Para ensinar uma habilidade instável, deve-se utilizar uma habilidade estável para iniciar a aprendizagem. GALLAHUE e OZMUN (2001, p. 572) destacam ainda, que além da progressão do simples ao complexo, “os indivíduos progridem gradualmente do geral ao específico no desenvolvimento e refinamento de suas habilidades.”

A demonstração facilita o aprendizado, pois instruir e depois demonstrar minimiza instruções mais complexas. A demonstração apresenta particularidades que reduzem a incerteza na execução de uma habilidade motora (TONELLO; PELLEGRINI, 1998). TONELLO e PELLEGRINI (1998) afirmam que a informação visual tem uma importância fundamental no comportamento motor humano e, em específico, no processo de ensino-aprendizagem de habilidades motoras. Os atletas aprendem mais a ver e fazer, do que a ouvir (McGOWN, 1991).

Os treinadores deveriam utilizar dois métodos de ensino: a demonstração e a instrução verbal. Alguns estudos comprovam que a aprendizagem é mais eficiente ao se utilizarem várias demonstrações, mas somente a demonstração não é suficiente, por isso se utiliza a instrução ou palavras-chave. Esse recurso tem quatro funções a desempenhar: concentrar a informação; reduzir o número de palavras, diminuindo a exigência de processamento de informação; focalizar a atenção do praticante no que é importante, e auxiliar a memória. Isso conclui que o ideal é fazer uma perfeita combinação entre a demonstração e a utilização de palavras-chave (McGOWN, 1991).

Portanto, as crianças e jovens devem vivenciar as mais variadas experiências motoras para adquirirem no futuro as habilidades específicas dos esportes. Não é recomendável e muito menos importante, que ocorra uma especialização precoce. O desenvolvimento multilateral das crianças proporcionará as mesmas uma grande possibilidade de sucesso esportivo futuro.

Referências:

– GALLAHUE, D. L.; OZMUN, J. C. Compreendendo o desenvolvimento motor: bebês, crianças, adolescentes e adultos. Tradução de Maria Aparecida da Silva Pereira Araújo. São Paulo: Phorte, 2001.

– GODINHO, M; MENDES, R; BARREIROS, J. Informação de retorno e aprendizagem. Revista Horizonte, Lisboa: [s.n.], v. XI, n. 66, p. 217-220, mar./abr. 1995.

– MAGILL, R. A. Aprendizagem Motora: conceitos e aplicações. Tradução Dra. Aracy Mendes da Costa. São Paulo: Edgard Blücher, 2002.

– McGOWN, C. O Ensino da técnica desportiva. Treino Desportivo, Lisboa: [s.n.], II série, n. 22, p. 15-22, dez. 1991.

– MELO, R. S. Futebol: da iniciação ao treinamento. Rio de Janeiro: Sprint, 2001. (Cap. Aprendizagem Motora, p. 33-47).

– SCHMIDT, R. A. Aprendizagem e Performance Motora: dos princípios à prática. Tradução Flávia da Cunha Bastos; Olívia Cristina Ferreira Ribeiro. São Paulo: Movimento, 1993.

– TONELLO, M. G. M.; PELLEGRINI, A. M. A utilização da demonstração para a aprendizagem de habilidades motoras em aulas de Educação Física. Revista Paulista de Educação Física, São Paulo: Escola de Educação Física e Esporte da Universidade de São Paulo, v. 12, n. 2, p. 107-114, jul./dez. 1998.

– VILANI, L. H. P. O sistema de formação esportiva e as possibilidades de ação para o desenvolvimento do Tênis de Mesa Mineiro. Disponível em: <http://www.efdeportes.com>. Revista Digital, Buenos Aires, ano 5, n. 28, dez. 2000.

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